quinta-feira, 25 de junho de 2009

A revolução do bom senso

Considerável energia tem sido dedicada a compreender os grandes paradoxos da civilização: caos e ordem, ignorância e conhecimento, miséria e riqueza, servidão e liberdade, entre outros. Porém, os resultados mais significativos para melhorar a vida têm sido conseguidos pela combinação de reflexão e ação para eliminar os pequenos problemas do dia-a-dia. O fundamento necessário não é nem o famoso método científico, nem o perigoso senso comum, mas o bom senso.

O bom senso, segundo nosso amigo Aurélio, significa a "aplicação correta da razão para julgar ou raciocinar em cada caso particular da vida". Pela definição, vê-se que sua prática exige muita experiência e reflexão, embora o conceito seja simples e não dependa de teorias sofisticadas. Essa revolução tem sido ensaiada por muitas organizações públicas e privadas e, até mesmo, por cidades inteiras, estando presente em qualquer movimento que mobiliza o potencial humano para: ordenar o caos, manter a cidade limpa, dar boa utilização aos recursos materiais e humanos, criar consciência ecológica, educar o povo para a saúde preventiva e despertar o amor ao conhecimento.

O movimento que tem mobilizado as organizações humanas no Brasil para essa revolução tem sido articulado com o nome de 5S, ou seja, os cinco (bons) sensos de: utilização, ordenação, limpeza, saúde e autodisciplina. Poderíamos, para efeito mnemônico, dar-lhe o nome alternativo de UOLSA. Os resultados conseguidos até o momento são muito significativos, e têm sido amplamente reconhecidos: melhoria das condições de trabalho e das relações humanas; exercício da criatividade; combate ao desperdício; diminuição de custos e organização de empresas para a implantação de sistemas obrigatórios e voluntários de: controle da qualidade, segurança do trabalho, saúde ocupacional e proteção ambiental.

UTILIZAR bem os recursos materiais e humanos, suprindo carências onde elas existam e eliminando os excessos onde se manifestem, é um imperativo categórico da vida civilizada. No plano nacional, implica estancar os desvios intencionais de recursos públicos, bem como as perdas por gerenciamento ineficiente. A inteligência de todos e cada centavo disponível devem ser aplicados para banir a miséria deste País, tornando-o justo e seguro para nossos filhos e netos.

ORDENAR o caos, que gera improdutividade nas organizações e má qualidade de vida para o cidadão, é uma necessidade inadiável. O caos que nos atormenta reflete-se imediatamente nas péssimas condições de trabalho; na falta de fluxos otimizados nos sistemas de produção; na ausência de comunicação visual adequada nas vias públicas; nos sistemas de informações pré-históricos dos órgãos públicos; nas filas nos bancos, entre outros aspectos negativos.

LIMPAR e higienizar é necessário para a conservação do patrimônio físico, além de criar a necessária assepsia para a saúde. A reincidência de doenças decorrentes da falta de higiene deve servir-nos de alerta. A limpeza de equipamentos e bens materiais significa conservação de recursos, enquanto a higiene pessoal gera saúde e bem-estar; no aspecto ambiental, significa comportamento ecológico; no trabalho, significa fazer bem feito; nas relações humanas, significa eliminar os ruídos da comunicação e estabelecer o apego ao relacionamento honesto. Aqueles que querem levar vantagem em tudo são fonte de sujeira social.

SAÚDE física e mental é condição indispensável para uma eventual felicidade na Terra. Utilização, ordenação e limpeza/higiene são a base da saúde e da apreciação estética. Além disso, a criação de hábitos saudáveis de vida, seguindo as melhores práticas aprovadas pela tradição e recomendadas pelos especialistas, é uma necessidade urgente para todos. Não podemos nos esquecer de que a conquista da saúde, em sentido pleno, passa pela reflexão mais abrangente e de longo prazo sobre a civilização doentia em que vivemos, que induz ao consumo destrutivo e à vida tóxica.

AUTODISCIPLINA é o objetivo maior da educação integral. Ela tem a ver com o desenvolvimento do autocontrole, da ética da responsabilidade e da cidadania a partir de ações práticas em relação à utlização, ordenação, limpeza/higiene e saúde. O crescimento em autodisciplina implica fazer fluir o desenvolvimento humano como um todo, tornando-se perene pela alternância entre a aprendizagem, a execução e a inovação.

Monitorando-se o processo para que os desafios lançados não estejam muito acima da habilidade da pessoa ou do grupo, nem muito abaixo, evitam-se tanto a ansiedade quanto o tédio paralisadores da ação e criadores de estresse indesejável. Desta forma, será possível fazer fluir o potencial instalado pelo movimento de potencialização e realização do potencial humano, com a devida inserção de momentos de reenergização e apreciação estética.

As palavras-chave para a efetivação do movimento gravitam em torno de: liderança, mobilização, diálogo, criatividade, respeito pelo outro, reflexão e ação. A sua prática tem demonstrado que, entre a contemplação filosófica inoperante e a ação destituída de reflexão, existe uma terceira opção: integrar pensamento, sentimento e ação na construção democrática permanente de melhores condições de trabalho e de vida, por mais precárias que sejam as condições iniciais.

* João Martins da Silva, professor-adjunto da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), autor do livro "O Ambiente da Qualidade na Prática - 5S"

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A qualidade como ideal

Qualidade é uma daquelas palavras que podem significar qualquer coisa quando isolada. Essa elasticidade torna-a uma daquelas ideias universais que estão presentes em todos os tempos e em todas as classes sociais, tais como, entre outras: verdade, beleza, bondade e justiça. Quase ninguém sabe definir essas palavras. Quando elas são pronunciadas em concordância com o fenômeno que representam, soam como um axioma que dispensa definição. Quando se quer resumir todas essas ideias costuma-se usar, indistintamente, a palavra qualidade.

Vistas sob um ângulo pragmático, qualidade significa simplesmente “aquilo que satisfaz” aos diversos quesitos colocados em questão em situações concretas. Sob um ângulo mais restrito, ela significa adequação ao uso. Entretanto, ela está na intercessão de vários interesses, de forma que só pode ser conseguida se satisfizer minimamente, e simultaneamente, os interesses dos atores em ação. Para contemplar essa realidade os japoneses preferiram, num dado momento, referir-se ao termo Qualidade Total, significando a qualidade vista sob todos os aspectos relevantes, levando-se em conta o interesse de todos os atores afetados: usuários, produtores, financiadores, meio ambiente, sociedade e governo.

Contudo, há os que preferem manter a palavra qualidade isolada, num primeiro momento, e mediante cada situação, acrescentar o adjetivo capaz de qualificá-la. Assim, pensa-se, primeiramente, numa qualidade como princípio universal e, em seguida, contextualiza-se o termo para situações particulares. Esquerda, direita e centro são favoráveis à qualidade; entretanto, a esquerda pensa, com frequência, numa qualidade a ser distribuída a todos, sem ônus, enquanto a direita pensa na qualidade a ser adquirida por quem pode pagar por ela e, na sua visão moderada, supõe que um ambiente de qualidade deve ser garantido a todos de forma que cada um possa lutar pela qualidade de vida superior que deseja obter.

Particularmente na economia de mercado – ou capitalismo -, a qualidade deve ser oferecida por todos que queiram obtê-la para si. O trabalhador deve oferecer o melhor de si para obter o maior salário possível. Os donos da empresa devem oferecer o melhor produto capaz de competir pela preferência do consumidor pelo maior preço que ele esteja disposto a pagar. O acionista espera obter o maior retorno sobre o capital investido, seja no curto ou no longo prazo. O governo, quando preocupado com o emprego, costuma oferecer condições de entrada que atraiam o capital e, ao mesmo tempo, tem a expectativa de que terá retorno em impostos, além de empregos para os trabalhadores. E daí por diante, cada um buscando o interesse próprio e, eventualmente, o interesse mais amplo da sociedade.

O religioso quer qualidade de vida permanente no futuro – no céu -. O ateu quer qualidade de vida aqui e agora. O filósofo religioso procura balancear o presente e o futuro, sabendo que tanta nesta vida quanto na outra é possível obter a tão desejada qualidade de vida. Entretanto, a qualidade concreta nesta vida exige trabalho árduo e disposição para a melhoria contínua de tudo, o tempo todo, com os devidos intervalos para descanso para manter a qualidade da saúde. Assim, a qualidade só pode ser conseguida no movimento de atualização de potenciais existentes, sejam eles manifestos ou latentes. Ela pode ser obtida aqui e agora, por exemplo, pela eliminação das barreiras de comunicação e de resíduos emocionais e físicos que infestam o ambiente. Pode, ainda, ser conseguida por meio de descobertas e invenções que promovam saltos de qualidade de vida.

A produtividade, especialmente a financeira, só pode ser conseguida para um certo patamar de qualidade. Ela só pode ser conseguida quando a própria gestão é de boa qualidade.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A realização do potencial humano

A História registra que o ser humano é um mediador indispensável na transformação de idéias em bens materiais e culturais. Como ser que pensa, sente, age e interage, ele tem potencial latente a ser desenvolvido ou realizado, de acordo com o ponto de vista adotado. O movimento de realização dá-se no presente, e aumenta o poder - “empodera”- a pessoa para novas e maiores realizações. O resultado final pode ser o homem realizado, o produto da ação humana, ou ambos, como é o pressuposto deste autor.

O ser humano entra em ação para satisfazer necessidades – carências percebidas - e desejos – necessidades moldadas pela cultura -. Sua satisfação ocorre tanto durante a atividade de realização quanto na apreciação e consumo dos frutos de sua atividade. Precisa de poder para agir, adquire poder na ação refletida e aumenta o seu poder por meio dos instrumentos que cria.

Pelos feitos do ser humano na História, sabe-se do que ele é, efetivamente, capaz de realizar e, com algum otimismo, podem-se fundamentar esperanças de realizações ainda maiores. Assim, é necessário promover um nivelamento da capacidade geral de realização e alimentar uma fé racional na capacidade de realizações superiores. Esse nivelamento poderia começar pela prática dos hábitos padrão-universal, e pela solução de problemas progressivamente mais difíceis, em equipe.

Quanto ao potencial já demonstrado, sabe-se que ele pode ser de natureza construtiva ou destrutiva, o que implica a decisão de se tomarem como referência os valores universalmente aceitos; por exemplo, aqueles que constam da Declaração dos Direitos Humanos. A realização a serviço da vida exige que não se coloque o produto da ação humana como centro da atenção, mas o homem como origem e destino dos frutos da própria realização o que, a bem da verdade, está distante da prática atual.

A realização do potencial humano implica dominar as melhores práticas existentes, desenvolver uma cultura de melhoria de tudo e romper com o status quo, sempre que necessário ou conveniente. Implica, ainda, seguir o roteiro básico da dinâmica do conhecimento: ideação, experimentação, sistematização, operação e contínuo questionamento dos resultados obtidos e dos meios usados, sob diferentes pontos de vista e critérios de julgamento.

Os recursos efetivamente disponíveis são a inteligência, a sensibilidade, a vontade, a energia e a sabedoria que provém da experiência refletida. O caminho a ser percorrido vai da ignorância ao conhecimento, da ação por impulso à ação intencionalmente conduzida, do consumo máximo ao consumo mínimo.

No que se refere ao crescimento humano propriamente dito, e não apenas à apreciação dos frutos da ação humana, o processo de realização depende do diálogo permanente, da tolerância das diferenças individuais, da aprendizagem com o erro e da criação de um ambiente que leve em consideração as necessidades humanas que decorrem de suas condições de existência.

A compatibilização entre o indivíduo e o sistema social com o qual contribui é um grande desafio, já que é preciso encontrar um meio termo justo entre o sistema aberto e caótico, do tipo salve-se quem puder, e o sistema fechado e rigidamente estruturado, que inibe a ação do indivíduo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Mente alerta, coração humilde

O homem que tem a mente alerta e o coração humilde pode aprender com qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer idade. Este é um dos segredos dos homens representativos da humanidade. Matsushita, o grande empresário-filósofo japonês, aplicou-o com muito sucesso. Deming, o americano que alertou os japoneses para a qualidade, aplicou-o em sua própria vida. Ford aplicou esse princípio no aperfeiçoamento do automóvel.

O homem, como se sabe, consolida o seu caráter a partir de sua experiência de vida. Alguns refletem sobre essa experiência, e tornam-se estrategistas. Outros, ainda que não reflitam, incorporam um saber tácito que pode beneficiar a si mesmo e às pessoas que deles se aproximam sem preconceitos. Afinando sua capacidade de julgar, o homem prático-reflexivo pode encontrar os princípios envolvidos em atividades aparentemente díspares, e desvendar-lhe o segredo básico, como fazem os cientistas, ainda que não saibam expressar-se com a linguagem dos cientistas.

Essa capacidade de aprender com a prática refletida, e criar conhecimento tácito, está amplamente disseminada, em maior ou menor grau; mas, não é uma capacidade bem usada pelas pessoas que não têm uma mente alerta e um coração humilde. O professor que não aceita aprender com o aluno, por exemplo, dá demonstração de falta de humildade e sabedoria, pois, a inteligência de muitas alunos, bem como a variedade de suas experiências, poderiam enriquecer o professor consciente dos mecanismos de aprendizagem.

Até mesmo profissionais altamente qualificados podem aprender com humildes operadores, pois, enquanto aqueles são mais conhecidos por profundo domínio teórico do seu campo de atividade, o operador é quem domina os pequenos e, às vezes, cruciais, segredos da prática. Não possuindo a linguagem para valorizar o seu saber, o operador pode abster-se de tomar a iniciativa de comunicar esse saber em ocasiões importantes; porém, a mente alerta e humilde do profissional sofisticado poderá extrair-lhe o segredo de forma natural e, ainda, compartilhar com ele seus conhecimentos sofisticados.

De fato, tudo é uma questão de comunicação. Pela comunicação empática, trocam-se experiências pela mútua observação, pelo diálogo e pelo uso de signos cuja compreensão esteja ao alcance do interlocutor. Porém, a falta de humildade pode bloquear o fluxo da informação entre pares de status diferenciados impedindo, assim, que o potencial humano de criar riquezas seja plenamente exercitado. Esse tipo de barreira pode ser verificado, em especial, em países subdesenvolvidos, em que muitos portadores de diplomas colocam-se acima do homem comum e despreza sua experiência de vida.

Quando algumas organizações humanas tornam-se conscientes disso, procuram desbloquear o fluxo de informação e de emoção criando grupos de estudos e de reflexão orientados por princípios que facilitam a comunicação humana. Sentindo-se respeitadas, até mesmo as pessoas mais tímidas começam a se envolver, aumentam sua experiência e colocam-na ao alcance de outros colegas, fazendo fluir as idéias necessárias à alimentação da Dinâmica do Conhecimento.

Nas salas de aula pode-se criar um clima semelhante deixando de incentivar a disputa por notas e promovendo, ao contrário, um ambiente de aprendizagem compartilhada. Uma prova, por exemplo, após aplicada, pode ser analisada pelos próprios alunos até que todos se nivelem naquele conhecimento; então, o professor poderia repeti-la, usando exercícios semelhantes, e lançar a nova nota, já melhorada pela aprendizagem efetiva do assunto. Para fazer isso, entretanto, é necessário que a mente esta alerta e o coração, humilde.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Os três ingredientes básicos das organizações humanas

A educação para a transformação social pressupõe que se capacitem os cidadãos para o autoconhecimento, o conhecimento do outro e da natureza. Mas, é necessário que eles compreendam, também, como funcionam as organizações humanas, por meio das quais dão a sua contribuição à sociedade e se humanizam por meio do trabalho. São três os ingredientes básicos das organizações: propósito, divisão do trabalho e coordenação.

Nas palavras vibrantes de Fuerbach, o propósito é o impulso vital consciente, optado e essencial, a visão genial, o ponto luminoso do conhecimento de si mesmo – a unidade de natureza e espírito no homem. Quem possui um propósito, diz Feurbach, possui uma lei sobre si; ele não só se conduz, mas é conduzido. O propósito da organização deve ser, portanto, compatível com os propósitos individuais dos seus membros, embora isso seja muito difícil de se conseguir.

A falta de propósito é uma grande desgraça. Uma inteligência superior, sem um propósito superior, torna-se menos produtiva do que uma inteligência menor com propósito. A constância de propósito, ou missão, torna sagrado cada minuto de vida da pessoa que a tem consciente e explicitamente. O desdobramento da missão deve gerar uma visão de futuro factível, além de metas a serem realizadas no curto prazo. A meta, sendo mensurável e verificável, gera motivação quando os resultados são considerados compensadores, quer financeira, quer psicologicamente.

A divisão do trabalho foi um dos fatores que possibilitaram a revolução industrial, embora a concentração excessiva da pessoa numa atividade restrita possa torná-la um ser humano incompleto. Daí a necessidade de que as pessoas tenham a oportunidade de variar suas atividades, ampliando seu espectro de competências até se tornarem, tanto quanto possível, multifuncionais, capazes de se livrarem, por iniciativa própria, tanto da ansiedade quanto do tédio em suas vidas.

Ninguém consegue fazer tudo, o tempo todo, de forma econômica. Ninguém deveria ser impedido de aprender tudo que quiser, tornando-se progressivamente uma pessoa mais completa. As competências distintivas naturais de cada pessoa, por outro lado, fazem com que elas se desempenhem melhor em certas atividades do que em outras, o que sempre será uma tentação para mantê-las como especialistas isoladas dentro dos complexos sistemas de produção atuais. Somente o bom senso oriundo do permanente diálogo e reflexão pode evitar os extremos da especialização e da generalização.

A coordenação é a atividade capaz de maximizar a produtividade do todo, mantendo as partes ajustadas entre si. Em grupos de alta maturidade ela ocorre com certa naturalidade. As pessoas e as coisas devem ser reposicionadas em função de suas características, talentos e competências, bem como em função das exigências ambientais. Toda pessoa pode, em princípio, coordenar algo, desde a execução de uma pequena tarefa, até a totalidade da organização humana produtiva. A coordenação, como está implícito no nome, é sempre uma co-ordenação.

O grau de liberdade dos agentes dependerá sempre de sua maturidade. Assim, liberalismo, democracia e autocracia impõem-se em função do grau de conhecimento, energia, inteligência e vontade de cada ator. O importante é que o potencial individual e coletivo sejam realizados de forma progressiva, permitindo-se a realização máxima do potencial disponível.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Qualidade e justiça

Não há quem saiba definir qualidade objetivamente, embora qualquer um saiba quando se está diante dela. O mesmo é válido para justiça. O dicionário Aurélio afirma que justiça é “conformidade com o direito; a virtude de dar a cada um aquilo que é seu”, o que implica fazer valer o Código de Defesa do Consumidor, entre outros instrumentos legais. No caso da sobrevivência no mercado competitivo, é necessário ir além do cumprimento dos quesitos obrigatórios, e oferecer uma qualidade atrativa, capaz de encantar o cliente. A garantia da qualidade, quando não oferecida voluntariamente, é uma questão para a Justiça.

Na Grécia antiga, a capacidade de diálogo de Sócrates forçou o sofista Trasímaco a explicitar sua visão de justiça, fazendo-o ficar nu diante do público a quem usualmente enganava com suas artimanhas semânticas: “(...) – Eu declaro que a força é um direito, e que a justiça é o interesse do mais forte. (...). Ora, quando um homem tirou o dinheiro dos cidadãos e os transformou em escravos, em vez de ser chamado de trapaceiro e ladrão, ele é chamado de próspero e é abençoado por todos. (...). ” Para Trasímaco, aqueles que são contra a injustiça não o são por serem, eles mesmos, justos, mas por não serem os beneficiários da injustiça. Por outro lado, Nietzsche afirmou que, “com o aumento da competição, a qualidade torna-se mera aparência, vencendo aquele que melhor engana”. Sente-se na pele que os que vivem de enganar deturpam a justiça e engendram a má qualidade de vida.

Um advogado contou a um amigo meu algumas de suas experiências naqueles tempos em que o Brasil estava mais distante da justiça e da qualidade. Afirmou que, apesar de ser ateu, salvava as aparências como religioso, usando a Bíblia para emocionar, enganar e amedrontar subliminarmente cristãos ingênuos. Ele descreveu em detalhes algumas de suas atuações magistrais, capazes de condenar o inocente e absolver o culpado. Ressalvou que uma de suas estratégias para vencer consistia em excluir do júri, sempre que possível, as pessoas que tivessem lucidez e independência para compreender e rejeitar suas manhas. Enfim, meu amigo teve uma clara demonstração de que, no plano formal, a Justiça precede e dá sustentação à qualidade, mas que, no plano real, somente uma filosofia da qualidade pode fazer a Justiça funcionar bem. E isso implica a existência de homens justos.

Meu amigo percebeu que, para agir como cidadão, deveria associar um senso de qualidade a um senso de justiça. Para tal, adotou, entre outras, as seguintes estratégias: i) cercar-se de bons e justos profissionais do direito, ii) adquirir conhecimento histórico; iii) dominar as artimanhas da retórica para defender-se dos sofistas; iv) refinar sua inspiração criadora e sua coragem de agir. Na sua opinião, a construção de um Brasil digno deve partir do princípio da “conformidade com o direito e da decisão de dar a cada um aquilo que é seu”, mas isso não é suficiente. Em verdade, é necessário buscar superar as obrigações legais, e desenvolver um senso de responsabilidade para que a qualidade possa ser possível sem os formalismos da Justiça e que esta não se transforme numa trincheira para a defesa do direito mal adquirido.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Preceitos éticos universais

Ética é a parte da filosofia que estuda os juízos de apreciação que se referem à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto. O resultado de tal estudo são preceitos orientadores do comportamento humano saudável. A prática de tais preceitos exige que se tenha educado o homem para a disciplina consciente, ou autodisciplina, o que é bastante raro, embora desejável.

A partir da Declaração dos Direitos Universais do Homem, delineou-se um núcleo comum de uma ética universal capaz de orientar a ação: os preceitos da liberdade, da paz e da justiça como anseio e direito de todo ser humano. Levar em conta esses preceitos implica agir com espírito de fraternidade em todas as situações, incluindo aquelas de incerteza, quando cada passo à frente representa um risco que precisa ser corrido.

Esses preceitos foram expressos de muitas maneiras semelhantes por muitos luminares da humanidade, representantes de visões de mundo aparentemente diferentes. Uma das formas mais comuns de expressar tal preceito, comuns a todas as religiões, é por meio da Regra de Ouro, que sugere que façamos ao outro aquilo que gostaríamos que ele fizesse conosco o que, evidentemente, não se aplica a sádicos e masoquistas. Na versão de Imanuel Kant, o homem deveria comportar-se de tal maneira que o seu comportamento pudesse ser adotado universalmente.

Parodiando certo cristão primitivo, poderíamos dizer que “quando pudermos agir com base em conhecimento perfeito, não necessitaremos de opiniões e crenças; entretanto, enquanto isso não acontece, guiemo-nos pela fé, pelo amor e pela esperança, com especial ênfase para o amor, capaz de tudo perdoar e de dar significado à vida, mesmo quando ela pareça não ter nenhum”. Na impossibilidade da prática do amor, deveríamos, pelo menos, praticar a solidariedade e o respeito, duas bases sólidas legadas pelo avanço da civilização.

Cada passo que damos na vida, nós o fazemos baseado em conhecimento anterior, ou na suposição de que o bom senso nos ajude a decidir sobre o que fazer. Quando a situação é desconhecida, estaremos sempre diante de uma aventura, ainda que pequena. Nosso guia, portanto, além de um preceito universal, passa a ser a intuição, orientada, simultaneamente, pela fé e pela dúvida. Como sabemos, a dúvida é recomendável para se pesquisar, mas não pode reinar absoluta, sob pensa de levar as pessoas à loucura. Assim, as ações do dia-a-dia devem ser orientadas por princípios e regras de convivência decorrentes das lições históricas, isto é, preceitos éticos consensuais, sobre os quais não pairem dúvidas.

Quando se ignoram tais preceitos, prepara-se o caminho para a luta de todos contra todos. Nessa luta, apesar de os mais fortes e espertos sobreviverem num primeiro momento, somente os que se associam para defender interesses comuns têm futuro a médio e longo prazos. Esse processo doloroso, supõe-se, não precisa ser repetido entre seres racionais que, refletindo sobre o passado e o presente, tiram as lições de vida válidas para conduzir a vida para um futuro melhor. Essas lições de vida, para serem praticáveis, precisam ser expressas por meio de preceitos éticos universais, como a Regra de Ouro.