Desenvolver pessoas implica ajudá-las a tornarem-se aptas a usar suas forças mentais e corporais por iniciativa própria, num contexto de respeito pelo outro e pelo meio ambiente. O processo é dinâmico e interativo e o mestre, muitas vezes, aprende com o aluno. Como resultado do processo espera-se pessoas com autodisciplina e autoconfiança, capazes de continuarem aprendendo, produzindo e ajudando no desenvolvimento de outras pessoas por toda a vida.
Nesse processo, prática e reflexão devem ser conjugadas de forma que se possa chegar à internalização dos princípios fundamentais da ação em cada campo de atividades. Enquanto tais princípios não são descobertos pelo próprio praticante, obviamente que ele os toma emprestados da experiência humana em geral e, especificamente, da tradição do campo de atividades em que atua.
A tradição alemã de preparação de mão-de-obra disciplinada e autoconfiante consiste, por exemplo, em fazer com que ela pratique, durante seis a oito meses, a arte de limar metais. Somente a partir daí as pessoas são colocadas em contato com a informática e outras tecnologias, pois estarão em condições de dominá-las seguindo o hábito adquirido de fazer trabalho limpo e com estilo.
Técnica semelhante é usada pelos japoneses, que se inspiram em tradições filosóficas, religiosas e, especialmente, nas artes marciais. A disciplina própria das artes marciais no estilo japonês pode ser vista, por exemplo, na arte do manuseio da espada e de atirar com o arco. A meta final é a elevação espiritual do praticante, e não apenas a obtenção de resultados finais mensuráveis; porém, com essa elevação, ele se torna aptos a obter resultados excepcionais.
Freud destacou, como parte do processo histórico de desenvolver pessoas, a combinação de amor, trabalho, esporte, arte e religião além de, em último caso, coerção. Ele alertou para a necessidade de se buscar a ação sempre centrada em conhecimento como forma de superar ilusões e permitir ao homem uma educação racional e digna, apesar das forças irracionais que o impulsionam à ação.
Psicólogos e líderes em geral têm concordado que o desenvolvimento humano se dá quando as pessoas são levadas a atingir metas desafiadoras, porém factíveis, e que apresentem resultados parciais prontamente mensuráveis e reconhecidos, como ocorre no esporte. Os avanços devem ser elogiados, assim como as falhas devem ser reconhecidas como esforço de treinamento, que deve ser intenso antes da ação efetiva.
Enfim, o desenvolvimento de pessoas ocorre quando elas aplicam a dinâmica do conhecimento intencionalmente, individualmente ou em equipe. Essa dinâmica é composta pela interação entre ideação, experimentação, julgamento, sistematização e operação, sendo aplicada em três níveis: imitação, ou aprendizagem da prática estabelecida; aperfeiçoamento contínuo e, eventualmente, inovação. Enquanto se percorre essa dinâmica, é imprescindível adotar princípios gerais de convivência validados pela longa experiência da humanidade, tais como: amizade, alegria, justiça, equidade, honestidade e solidariedade.
O sentido da vida não se encontra no produto da ação humana, mas no interior mesmo do homem, pelo desenvolvimento de sua potência de agir com qualidade e produtividade. As peculiaridades humanas, como ritmo e intensidade da ação, devem ser respeitadas, assim como suas condições gerais e específicas de existência. Em última análise, a experiência cotidiana nos diz que o desenvolvimento humano tem muito mais de arte do que de ciência.
segunda-feira, 30 de março de 2009
segunda-feira, 23 de março de 2009
Como obter resultados
A importância da gestão para resultados tem sido ressaltada por meio de anedotas. Numa delas o motorista de taxi foi premiado no céu por ter induzido seus clientes a rezar, devido à sua direção perigosa; enquanto o pregador foi penalizado por ter induzido seus fieis a dormir, ao invés de rezar.
Outra anedota reza que um mau estudante ficou rico comprando por 1, vendendo por dois e, segundo suas contas, ganhando um por cento na transação. Só que ele passou a operar quantidades cada vez maiores de dinheiro até ficar milionário, seguindo o infalível método de comprar por um e vender por dois, ganhando um por cento, enquanto o aluno estudioso continuou pobre, apesar de fazer as contas certas.
A explicação dessas estórias, tendo em vista a Dinâmica do Conhecimento, é que nem sempre se sabe explicar o que se sabe, isto é, o conhecimento pode ser tácito. Outra explicação consiste em reconhecer que algumas pessoas preferem o rigor racional à relevância pragmática.
Dizer que existe uma gestão para resultados, em contraposição a outros tipos de gestão, não é uma afirmação correta. Poderíamos, sim, aceitar que existam pessoas orientadas para resultados, mais do que para boas relações humanas ou, ainda, pessoas que compreendem que os resultados são o fruto de um processo projetado para tal. Nas duas hipóteses tem-se, ainda, a possibilidade de que a pessoa tenha um cérebro poderoso, aprendendo com a vida e conseguindo resultados que não dependem de sua escolarização formal.
A questão de como obter resultados acaba caindo na velha questão de como promover uma gestão eficiente e eficaz. Sob este aspecto, sabemos que não existem receitas definitivas, pois, organizações bem-sucedidas durante décadas podem ser destruídas pela concorrência em pouco tempo devido, entre outras causas, à rupturas tecnológicas e descuido quanto ao alinhamento com o mercado. Existem, entretanto, pilares de sustentação que devem ser erguidos obrigatoriamente, como: contratação das melhores pessoas, capacitação e motivação para a ação, além da definição de objetivos organizacionais claros.
Deve-se estar atento a como os líderes de mercado (benchmark) agem, e questionar se suas lições podem ser aprendidas; porém, quando toda a energia é colocada na cópia desses modelos, perde-se a perspectiva de inovar e de assumir a liderança. Os líderes inovadores não pedem licença para agir, não têm modelos para seguir, não podem confiar nas histórias de sucesso, embora elas lhes sejam úteis. Por outro lado, mesmo conhecendo histórias de fracasso, grandes líderes do passado, como Napoleão e Hitler, foram vítimas de armadilhas que reeditaram a história. Isso apenas reforça que o ser humano é intrinsecamente falível e que seus empreendimentos, como eles próprios, estão sempre sujeitos à morte.
Pesquisando a literatura sobre o assunto, encontrei uma afirmação indiscutível a respeito: “embora o sucesso nunca esteja garantido, o fracasso é certo para quem não faz as coisas básicas.” Quanto à receita genérica definitiva para se obter resultados, gostei muito da afirmação: “só o permanente confronto com a responsabilidade gera resultados”. Implícita na afirmação está a necessidade de aceitar o fracasso, aprender com ele e nunca desistir.
Outra anedota reza que um mau estudante ficou rico comprando por 1, vendendo por dois e, segundo suas contas, ganhando um por cento na transação. Só que ele passou a operar quantidades cada vez maiores de dinheiro até ficar milionário, seguindo o infalível método de comprar por um e vender por dois, ganhando um por cento, enquanto o aluno estudioso continuou pobre, apesar de fazer as contas certas.
A explicação dessas estórias, tendo em vista a Dinâmica do Conhecimento, é que nem sempre se sabe explicar o que se sabe, isto é, o conhecimento pode ser tácito. Outra explicação consiste em reconhecer que algumas pessoas preferem o rigor racional à relevância pragmática.
Dizer que existe uma gestão para resultados, em contraposição a outros tipos de gestão, não é uma afirmação correta. Poderíamos, sim, aceitar que existam pessoas orientadas para resultados, mais do que para boas relações humanas ou, ainda, pessoas que compreendem que os resultados são o fruto de um processo projetado para tal. Nas duas hipóteses tem-se, ainda, a possibilidade de que a pessoa tenha um cérebro poderoso, aprendendo com a vida e conseguindo resultados que não dependem de sua escolarização formal.
A questão de como obter resultados acaba caindo na velha questão de como promover uma gestão eficiente e eficaz. Sob este aspecto, sabemos que não existem receitas definitivas, pois, organizações bem-sucedidas durante décadas podem ser destruídas pela concorrência em pouco tempo devido, entre outras causas, à rupturas tecnológicas e descuido quanto ao alinhamento com o mercado. Existem, entretanto, pilares de sustentação que devem ser erguidos obrigatoriamente, como: contratação das melhores pessoas, capacitação e motivação para a ação, além da definição de objetivos organizacionais claros.
Deve-se estar atento a como os líderes de mercado (benchmark) agem, e questionar se suas lições podem ser aprendidas; porém, quando toda a energia é colocada na cópia desses modelos, perde-se a perspectiva de inovar e de assumir a liderança. Os líderes inovadores não pedem licença para agir, não têm modelos para seguir, não podem confiar nas histórias de sucesso, embora elas lhes sejam úteis. Por outro lado, mesmo conhecendo histórias de fracasso, grandes líderes do passado, como Napoleão e Hitler, foram vítimas de armadilhas que reeditaram a história. Isso apenas reforça que o ser humano é intrinsecamente falível e que seus empreendimentos, como eles próprios, estão sempre sujeitos à morte.
Pesquisando a literatura sobre o assunto, encontrei uma afirmação indiscutível a respeito: “embora o sucesso nunca esteja garantido, o fracasso é certo para quem não faz as coisas básicas.” Quanto à receita genérica definitiva para se obter resultados, gostei muito da afirmação: “só o permanente confronto com a responsabilidade gera resultados”. Implícita na afirmação está a necessidade de aceitar o fracasso, aprender com ele e nunca desistir.
segunda-feira, 16 de março de 2009
Satisfaz?
Ao trilhar a lógica da Dinâmica do Conhecimento, uma pergunta básica e persistente se impõe: - satisfaz?
A resposta a esta pergunta implica uma decisão sobre os critérios da ‘verdade’.
Segundo Bazarian (BAZARIAN, Jacob. O Problema da Verdade) os critérios para se decidir se algo é verdadeiro originam-se: da autoridade, da evidência, da ausência de contradição, da prova e da utilidade. Sob a perspectiva dos sistemas de produção, esses critérios poderiam ser, simultaneamente: legais, técnicos ou comerciais.
Na Gestão pela Qualidade Total, segundo Falconi Campos, esses critérios deveriam levar em conta o famoso QCAMS – Qualidade intrínseca do produto, Custo, Atendimento, Moral e Segurança.
O critério fundamental observado pelo consumidor refere-se à utilidade do produto para os usos formais e informais que tiver em mente, daí a definição de Juran de que qualidade significa “adequação ao uso”. Deming ressaltou que, para o efetivo controle da qualidade – aquilo que o cliente acha que é -, devem ser estabelecidas definições operacionais para orientar a produção, bem como a transação entre produtor e consumidor. Isso impõe respeito ás leis naturais e submissão a certos padrões éticos universais ainda que, quando contextualizados, gerem dúvidas sobre o como colocá-los em prática.
Deming e Ishikawa, dois homens de forte base ética universal, ressaltaram a necessidade de pragmatismo quanto a coisas e processos físicos, porém, enfatizaram a necessidade de uma ética de justiça e equidade quando se tratam de pessoas. Eles foram considerados homens espirituais; o primeiro influenciado pelo cristianismo, o segundo pelo budismo.
A verdade, no caso da física teórica, exige o uso, num primeiro momento, da prova racional; entretanto, os axiomas mais poderosos geralmente manifestam-se como certeza que vem da razão intuitiva, que deve ser analisada racionalmente e confirmada pela experiência, como afirmou Einstein. Já na tecnologia, abre-se grande margem para a verdade pragmática, que prioriza o teste da experiência em detrimento da prova racional.
No caso do estabelecimento de critérios para transações comerciais, o pragmatismo atinge o seu ápice, quando tais critérios dependem totalmente da aceitação, pelo cliente, do bem ou serviço. Isso leva a uma disfunção potencial quando se lança mão de técnicas subliminares para explorar paixões e vícios latentes nas pessoas. As lições históricas mostram que, muitas vezes, as pessoas comuns não sabem o que querem e, geralmente, querem o que está em desacordo com as leis naturais e com a ética universal. Somente por meio da educação crítica e de qualidade, ao se formarem cidadãos, formam-se, simultaneamente, consumidores e clientes responsáveis.
A Dinâmica do Conhecimento, na sua forma mais geral, força a reflexão sobre o fato de que a verdade, naquilo que depende de acordo entre as partes, está sempre mudando em função das alternativas de mercado e do nível de educação dos cidadãos. Sob a perspectiva histórica, entretanto, é possível assumir que os valores universais sempre voltam à tona, mesmo quando, aparentemente, tenham sido esquecidos.
A resposta a esta pergunta implica uma decisão sobre os critérios da ‘verdade’.
Segundo Bazarian (BAZARIAN, Jacob. O Problema da Verdade) os critérios para se decidir se algo é verdadeiro originam-se: da autoridade, da evidência, da ausência de contradição, da prova e da utilidade. Sob a perspectiva dos sistemas de produção, esses critérios poderiam ser, simultaneamente: legais, técnicos ou comerciais.
Na Gestão pela Qualidade Total, segundo Falconi Campos, esses critérios deveriam levar em conta o famoso QCAMS – Qualidade intrínseca do produto, Custo, Atendimento, Moral e Segurança.
O critério fundamental observado pelo consumidor refere-se à utilidade do produto para os usos formais e informais que tiver em mente, daí a definição de Juran de que qualidade significa “adequação ao uso”. Deming ressaltou que, para o efetivo controle da qualidade – aquilo que o cliente acha que é -, devem ser estabelecidas definições operacionais para orientar a produção, bem como a transação entre produtor e consumidor. Isso impõe respeito ás leis naturais e submissão a certos padrões éticos universais ainda que, quando contextualizados, gerem dúvidas sobre o como colocá-los em prática.
Deming e Ishikawa, dois homens de forte base ética universal, ressaltaram a necessidade de pragmatismo quanto a coisas e processos físicos, porém, enfatizaram a necessidade de uma ética de justiça e equidade quando se tratam de pessoas. Eles foram considerados homens espirituais; o primeiro influenciado pelo cristianismo, o segundo pelo budismo.
A verdade, no caso da física teórica, exige o uso, num primeiro momento, da prova racional; entretanto, os axiomas mais poderosos geralmente manifestam-se como certeza que vem da razão intuitiva, que deve ser analisada racionalmente e confirmada pela experiência, como afirmou Einstein. Já na tecnologia, abre-se grande margem para a verdade pragmática, que prioriza o teste da experiência em detrimento da prova racional.
No caso do estabelecimento de critérios para transações comerciais, o pragmatismo atinge o seu ápice, quando tais critérios dependem totalmente da aceitação, pelo cliente, do bem ou serviço. Isso leva a uma disfunção potencial quando se lança mão de técnicas subliminares para explorar paixões e vícios latentes nas pessoas. As lições históricas mostram que, muitas vezes, as pessoas comuns não sabem o que querem e, geralmente, querem o que está em desacordo com as leis naturais e com a ética universal. Somente por meio da educação crítica e de qualidade, ao se formarem cidadãos, formam-se, simultaneamente, consumidores e clientes responsáveis.
A Dinâmica do Conhecimento, na sua forma mais geral, força a reflexão sobre o fato de que a verdade, naquilo que depende de acordo entre as partes, está sempre mudando em função das alternativas de mercado e do nível de educação dos cidadãos. Sob a perspectiva histórica, entretanto, é possível assumir que os valores universais sempre voltam à tona, mesmo quando, aparentemente, tenham sido esquecidos.
segunda-feira, 9 de março de 2009
Aperfeiçoamento contínuo
Melhoria contínua, aperfeiçoamento contínuo, aprendizagem por toda a vida, kaizen, entre outras, são expressões e termos técnicos usados para explicar a filosofia de gestão que contribuiu para que o Japão ressurgisse das cinzas. Para concretizá-la, os japoneses sistematizaram um efetivo instrumental para o pensamento e a ação, de forma a capacitar permanentemente as pessoas como agentes da construção da riqueza nacional.
Em perspectiva histórica, o aperfeiçoamento contínuo tem base em filosofias e religiões que o adotam como parte da estruturação do caráter humano.
Confúcio, na China, referiu-se ao Grande Aprendizado, que consistia em dotar cada pessoa da consciência de que a ação transformadora deveria começar dentro de cada um, pela construção de um caráter ativo orientado para a transformação do ambiente em torno de si. A transformação do mundo seria o resultado final de uma cadeia de transformações a partir de agentes cívicos ativos e autoconscientes. Buda teria proposto e praticado a transformação do próprio caráter, para que ele se transformasse naquilo que era em potencial.
Tanto o confucionismo quanto o budismo foram copiados e adaptados pelos japoneses tendo em vista a construção de um Japão próspero e justo. O bushido – o famoso código dos samurais -, contém elementos do budismo e do confucionismo, adotando o aperfeiçoamento contínuo como filosofia de vida praticada em larga escala. O samurai deveria ser um homem integral, conhecedor de muitas artes, incluindo as artes marciais. Sua espada deveria ser mantida sempre impecável, assim como sua disposição e preparo para a luta inevitável.
No cristianismo, o aperfeiçoamento contínuo, do interior para o exterior, é um imperativo categórico. Toda tentativa de trabalhar com aparências, privilegiando o aspecto externo, foi combatido veementemente por Cristo. O belo, o verdadeiro, o justo e, acima de tudo, o amor, deveriam refletir a busca da perfeição espiritual, missão obrigatória de todo cristão.
Assim, não basta falar em métodos, ferramentas e técnicas para a melhoria contínua. É preciso adotar a idéia como uma filosofia de vida que leve em conta um profundo conhecimento da natureza humana para que se faça a conexão entre seu caráter atual e caráter ideal. Como valor estruturado por emoções profundas, a filosofia do aperfeiçoamento contínuo só pode ser transmitida pelo exemplo direto, mais do que pela pregação sem o correspondente exemplo.
Compreendida e aceita a filosofia, ressalta-se a necessidade do método, ele mesmo permeado pela filosofia que se quer colocar em prática. Surge, então, a figura do mestre, capaz de ensinar certo por linhas tortas. Um bom exemplo pode ser visto no filme Kartê Kid 1, em que o garoto Daniel aprende artes marciais enquanto faz atividades rotineiras como limpar e pintar uma cerca, sem que soubesse que o princípio necessário para o exercício do karatê estava embutida no trabalho aparentemente insignificante que estava realizando.
Na atualidade, o cansaço produzido pela constante necessidade de parecer e de ter está induzindo, ao que parece, a necessidade de ser. Aparentemente tudo está levando a que se adote uma filosofia de melhoria contínua do caráter, com a melhoria contínua do produto sendo apenas um meio e, ao mesmo tempo, o reflexo desse objetivo maior.
Em perspectiva histórica, o aperfeiçoamento contínuo tem base em filosofias e religiões que o adotam como parte da estruturação do caráter humano.
Confúcio, na China, referiu-se ao Grande Aprendizado, que consistia em dotar cada pessoa da consciência de que a ação transformadora deveria começar dentro de cada um, pela construção de um caráter ativo orientado para a transformação do ambiente em torno de si. A transformação do mundo seria o resultado final de uma cadeia de transformações a partir de agentes cívicos ativos e autoconscientes. Buda teria proposto e praticado a transformação do próprio caráter, para que ele se transformasse naquilo que era em potencial.
Tanto o confucionismo quanto o budismo foram copiados e adaptados pelos japoneses tendo em vista a construção de um Japão próspero e justo. O bushido – o famoso código dos samurais -, contém elementos do budismo e do confucionismo, adotando o aperfeiçoamento contínuo como filosofia de vida praticada em larga escala. O samurai deveria ser um homem integral, conhecedor de muitas artes, incluindo as artes marciais. Sua espada deveria ser mantida sempre impecável, assim como sua disposição e preparo para a luta inevitável.
No cristianismo, o aperfeiçoamento contínuo, do interior para o exterior, é um imperativo categórico. Toda tentativa de trabalhar com aparências, privilegiando o aspecto externo, foi combatido veementemente por Cristo. O belo, o verdadeiro, o justo e, acima de tudo, o amor, deveriam refletir a busca da perfeição espiritual, missão obrigatória de todo cristão.
Assim, não basta falar em métodos, ferramentas e técnicas para a melhoria contínua. É preciso adotar a idéia como uma filosofia de vida que leve em conta um profundo conhecimento da natureza humana para que se faça a conexão entre seu caráter atual e caráter ideal. Como valor estruturado por emoções profundas, a filosofia do aperfeiçoamento contínuo só pode ser transmitida pelo exemplo direto, mais do que pela pregação sem o correspondente exemplo.
Compreendida e aceita a filosofia, ressalta-se a necessidade do método, ele mesmo permeado pela filosofia que se quer colocar em prática. Surge, então, a figura do mestre, capaz de ensinar certo por linhas tortas. Um bom exemplo pode ser visto no filme Kartê Kid 1, em que o garoto Daniel aprende artes marciais enquanto faz atividades rotineiras como limpar e pintar uma cerca, sem que soubesse que o princípio necessário para o exercício do karatê estava embutida no trabalho aparentemente insignificante que estava realizando.
Na atualidade, o cansaço produzido pela constante necessidade de parecer e de ter está induzindo, ao que parece, a necessidade de ser. Aparentemente tudo está levando a que se adote uma filosofia de melhoria contínua do caráter, com a melhoria contínua do produto sendo apenas um meio e, ao mesmo tempo, o reflexo desse objetivo maior.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Aprendendo com as melhores práticas
Uma das lições fundamentais desta era do conhecimento é a necessidade de se dominarem as melhores práticas disponíveis, em quaisquer setores da vida. Não é necessário, nem possível, reinventar sempre a roda. Se pensarmos nos aspectos comuns da civilização, essas práticas fundamentais remontam às virtudes cardeais, destiladas da dolorosa experiência histórica, tais como: justiça, coragem, temperança e sabedoria. No seu formato religioso, especialmente sob a perspectiva cristã, essas boas práticas são expressas nas virtudes fundamentais que Paulo associou ao amor, à fé e à esperança. Sob a pespectiva de um ecumenismo social, elas poderiam ser associadas à competência, à integridade e à solidariedade.
Em termos práticos, é melhor nomear tais conceitos de acordo com a necessidade de gerar resultados no dia-a-dia. Na visão de Freud, esses conceitos, derivados da civilização, seriam cinco: a parcimônia, a ordem, a limpeza, a beleza e o autodomínio. Sob as perspectiva dos sistemas produtivos, as boas práticas fundamentais, adaptadas da visão cultural, foram associadas, no Brasil, aos cinco sensos de: utilização, ordenação, limpeza, saúde e autodisciplina. Aplicando-as, pode-se criar o ambiente necessário à atividade humana produtiva e de qualidade. O conceito de boas práticas é genérico, sendo adotado intuitivamente pelo contato intercultural; porém, alguns povos são ativos e intencionais na sua adoção, enquanto outros são passivos.
Na sua versão formal, a adoção das boas práticas já é obrigatória em setores sensíveis à saúde, como o de alimentos e o farmacêutico. Em termos de gestão, o PNQ – Prêmio Nacional da Qualidade, procura incentivar que as organizações de melhor desempenho elaborem relatórios que passam a ser fonte de aprendizagem para as demais. Às vezes essa forma de ‘imitar’ recebe alguns nomes pomposos, tais como: engenharia reversa, reestruturação, benchmarking, técnica de desenvolvimento de produtos a partir de semente, entre outros. A atitude e o comportamento de se aprender com o melhor, se inteligente, levam em consideração as condições específicas vigentes no contexto do aprendiz, como ocorreu com os japoneses ao aprenderem a produzir carros de qualidade com americanos e europeus.
O Brasil ainda não adotou, em larga escala, a prática de aprendizagem com os melhores exemplos disponíveis, embora já tenha feito bons ensaios nesse campo. Especialmente no campo da educação, o País ainda não se deixou sensibilizar pelos melhores exemplos mundiais. A decisão adotada pelo Japão, em 1868, na dinastia Meiji, ainda nos surpreende sem que nos movamos na mesma direção. Nem mesmo o exemplo dos americanos, que em quase tudo costumamos nos basear, nos inspirou ao movimento decisivo de adotar a educação como fundamento da construção da riqueza nacional.
Poderíamos, ainda, pensar em adotar as boas práticas em temos de Índice de Desenvolvimento Humano, mas esta é a meta final, a ser conseguida mediante a manipulação de muitos meios. Contudo, existe um tema fundamental que pode fazer deslanchar todos os demais: as boas práticas relativas aos bons hábitos padrão mundial e a arte de dominar a dinâmica do conhecimento. Para deslanchá-la poderíamos usar o mote: cada brasileiro um cidadão, cada trabalhador um cientista em ação.
Em termos práticos, é melhor nomear tais conceitos de acordo com a necessidade de gerar resultados no dia-a-dia. Na visão de Freud, esses conceitos, derivados da civilização, seriam cinco: a parcimônia, a ordem, a limpeza, a beleza e o autodomínio. Sob as perspectiva dos sistemas produtivos, as boas práticas fundamentais, adaptadas da visão cultural, foram associadas, no Brasil, aos cinco sensos de: utilização, ordenação, limpeza, saúde e autodisciplina. Aplicando-as, pode-se criar o ambiente necessário à atividade humana produtiva e de qualidade. O conceito de boas práticas é genérico, sendo adotado intuitivamente pelo contato intercultural; porém, alguns povos são ativos e intencionais na sua adoção, enquanto outros são passivos.
Na sua versão formal, a adoção das boas práticas já é obrigatória em setores sensíveis à saúde, como o de alimentos e o farmacêutico. Em termos de gestão, o PNQ – Prêmio Nacional da Qualidade, procura incentivar que as organizações de melhor desempenho elaborem relatórios que passam a ser fonte de aprendizagem para as demais. Às vezes essa forma de ‘imitar’ recebe alguns nomes pomposos, tais como: engenharia reversa, reestruturação, benchmarking, técnica de desenvolvimento de produtos a partir de semente, entre outros. A atitude e o comportamento de se aprender com o melhor, se inteligente, levam em consideração as condições específicas vigentes no contexto do aprendiz, como ocorreu com os japoneses ao aprenderem a produzir carros de qualidade com americanos e europeus.
O Brasil ainda não adotou, em larga escala, a prática de aprendizagem com os melhores exemplos disponíveis, embora já tenha feito bons ensaios nesse campo. Especialmente no campo da educação, o País ainda não se deixou sensibilizar pelos melhores exemplos mundiais. A decisão adotada pelo Japão, em 1868, na dinastia Meiji, ainda nos surpreende sem que nos movamos na mesma direção. Nem mesmo o exemplo dos americanos, que em quase tudo costumamos nos basear, nos inspirou ao movimento decisivo de adotar a educação como fundamento da construção da riqueza nacional.
Poderíamos, ainda, pensar em adotar as boas práticas em temos de Índice de Desenvolvimento Humano, mas esta é a meta final, a ser conseguida mediante a manipulação de muitos meios. Contudo, existe um tema fundamental que pode fazer deslanchar todos os demais: as boas práticas relativas aos bons hábitos padrão mundial e a arte de dominar a dinâmica do conhecimento. Para deslanchá-la poderíamos usar o mote: cada brasileiro um cidadão, cada trabalhador um cientista em ação.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Imitar, aperfeiçoar, inovar
O ciclo da dinâmica da atividade, que deve ser transformado num ciclo da dinâmica do conhecimento pelo ser consciente, consiste em: ideação, experimentação, avaliação dos resultados dos experimentos realizados, consolidação desses resultados em sistemas operacionais tácitos e explícitos, operação do sistema e contínuo questionamento de meios e fins envolvidos, além de novas ações que promovam a realização de potenciais, necessidades e desejos. Esse ciclo possui três níveis básicos: imitação, aperfeiçoamento e inovação.
A imitação consiste na aprendizagem do existente. Pode ser realizada sob várias denominações, algumas delas usadas apenas para amenizar o impacto negativo da palavra, tais como: aprendizagem das boas práticas, domínio do estado da arte, domínio tecnológico, nivelamento cultural etc. Alguns nomes técnicos para a imitação, no campo dos negócios, podem ser: engenharia reversa, criação de produtos a partir de sementes e benchmarking. Alguns empresários, como Sam Walton e Jack Welch assumiram, sem meias palavras, que copiavam quaisquer boas práticas, em qualquer lugar do mundo. A aprendizagem intercultural é uma realidade, além de ser uma necessidade. Ralph Linton, no livro O Homem, ilustra a aprendizagem mútua entre culturas com um exemplo interessante. Ele supõe um cidadão americano conservador que, após ler sobre notícias de dificuldades em outros países, agradeça “a uma divindade hebráica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por cento americano”. Além dessa dependência fundamental, eis alguns dos objetos cuja existência esse americano deve a outros povos: a cama, o pijama, o sapato, a camisa, a gravata, o café, o açúcar e uma infinidade de outros objetos. Os animais abatidos para sua alimentação, como o porco, a galinha e a vaca foram todos domesticados por povos distantes. Na verdade, quando se fala em civilização ocidental, freqüentemente se pensa num conjunto de crenças, valores e objetos que, em grande parte, são de origem oriental. A imitação é um processo universal inevitável.
A imitação superpõe-se à filosofia e à prática do aperfeiçoamento. O processo de dominar o existente pode levar muitos anos, e exige aperfeiçoamento contínuo. Por outro lado, o aperfeiçoamento contínuo decorre de uma filosofia de vida que, se não for aprendida desde o berço, torna-se extremamente difícil de ser aprendida mais tarde. Talvez seja por isso que, perguntado sobre como o Brasil poderia compreender e aplicar essa filosofia, o consultor da JUSE (Japanese Union of Scientists and Engineers), senhor Ichiro Miyauchi, afirmou que, se o País trabalhar duro durante uns trintas anos, mobilizando maciçamente sua população, talvez ele consiga absorver essa filosofia em larga escala. Trata-se de um grande desafio de mudança cultural.
A inovação, representando o terceiro nível, tanto pode ser entendida como fruto de constantes aperfeiçoamentos, como de uma decisão de dar um grande salto, seja sob inspiração de uma visão de futuro, seja sob a imposição de crises. Se a inovação é pensada como mudança radical, rumo ao desconhecido, ela é uma aventura ao alcance das poucas pessoas Alguns visionários apontam para utopias, alimentam o sonho da humanidade, mas não se movem, eles mesmos, para realizá-las. Outros, tentam realizá-la, mas colhem o desastre. Não há garantia alguma de que a inovação dê bons resultados, embora, em algumas instâncias da vida, a ausência de inovação garanta a estagnação e a degeneração das condições de vida.
A imitação consiste na aprendizagem do existente. Pode ser realizada sob várias denominações, algumas delas usadas apenas para amenizar o impacto negativo da palavra, tais como: aprendizagem das boas práticas, domínio do estado da arte, domínio tecnológico, nivelamento cultural etc. Alguns nomes técnicos para a imitação, no campo dos negócios, podem ser: engenharia reversa, criação de produtos a partir de sementes e benchmarking. Alguns empresários, como Sam Walton e Jack Welch assumiram, sem meias palavras, que copiavam quaisquer boas práticas, em qualquer lugar do mundo. A aprendizagem intercultural é uma realidade, além de ser uma necessidade. Ralph Linton, no livro O Homem, ilustra a aprendizagem mútua entre culturas com um exemplo interessante. Ele supõe um cidadão americano conservador que, após ler sobre notícias de dificuldades em outros países, agradeça “a uma divindade hebráica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por cento americano”. Além dessa dependência fundamental, eis alguns dos objetos cuja existência esse americano deve a outros povos: a cama, o pijama, o sapato, a camisa, a gravata, o café, o açúcar e uma infinidade de outros objetos. Os animais abatidos para sua alimentação, como o porco, a galinha e a vaca foram todos domesticados por povos distantes. Na verdade, quando se fala em civilização ocidental, freqüentemente se pensa num conjunto de crenças, valores e objetos que, em grande parte, são de origem oriental. A imitação é um processo universal inevitável.
A imitação superpõe-se à filosofia e à prática do aperfeiçoamento. O processo de dominar o existente pode levar muitos anos, e exige aperfeiçoamento contínuo. Por outro lado, o aperfeiçoamento contínuo decorre de uma filosofia de vida que, se não for aprendida desde o berço, torna-se extremamente difícil de ser aprendida mais tarde. Talvez seja por isso que, perguntado sobre como o Brasil poderia compreender e aplicar essa filosofia, o consultor da JUSE (Japanese Union of Scientists and Engineers), senhor Ichiro Miyauchi, afirmou que, se o País trabalhar duro durante uns trintas anos, mobilizando maciçamente sua população, talvez ele consiga absorver essa filosofia em larga escala. Trata-se de um grande desafio de mudança cultural.
A inovação, representando o terceiro nível, tanto pode ser entendida como fruto de constantes aperfeiçoamentos, como de uma decisão de dar um grande salto, seja sob inspiração de uma visão de futuro, seja sob a imposição de crises. Se a inovação é pensada como mudança radical, rumo ao desconhecido, ela é uma aventura ao alcance das poucas pessoas Alguns visionários apontam para utopias, alimentam o sonho da humanidade, mas não se movem, eles mesmos, para realizá-las. Outros, tentam realizá-la, mas colhem o desastre. Não há garantia alguma de que a inovação dê bons resultados, embora, em algumas instâncias da vida, a ausência de inovação garanta a estagnação e a degeneração das condições de vida.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
A operação da rotina do dia-a-dia
Um dos conceitos universais reconhecidos por Frederick Taylor, reforçado por Henry Ford e consolidado pelo Sistema Toyota de Produção e pela Administração Japonesa em geral refere-se à gestão das atividades rotineiras. Esse conceito decorre naturalmente da análise da lógica universal da Dinâmica do Conhecimento.
Está implícito nessa lógica que, após conceber e confirmar um sistema operacional, a operação propriamente dita do mesmo deve ser conduzida com extremo cuidado, incorporando-se as lições da história. Na atualidade, com a grande intensificação da automação, os operadores são levados a desenvolver um senso refinado para dar manutenção produtiva total aos equipamentos, porém a partir de manutenção total da própria saúde e do desenvolvimento da autodisciplina. De certa forma, trata-se da intensificação da espiritualidade latu sensu no ambiente de trabalho.
É preciso partir de algumas lições da história a respeito, para que se tirem o melhor proveito das pessoas e da tecnologia. A primeira lição é que a operação de atividades repetitivas pode ser extremamente desmotivante, e até mesmo danosa à saúde do trabalhador. A segunda é que os padrões, ou sistemas operacionais geralmente são concebidos sem a efetiva participação dos seus operadores. Geram-se, então, aberrações que, para serem sanadas, exigem que os trabalhadores ignorem os padrões pouco inteligentes que lhes foram prescritos, recriando-os, às vezes clandestinamente.
As pesquisas dos ergonomistas têm demonstrado, de maneira sistemática e fartamente documentada, que o uso da inteligência no trabalho nem sempre é permitida. Por outro lado, quando se leva em consideração a natureza humana naturalmente criativa, podem-se resolver problemas complexos a partir da colaboração dos operadores.
Os sistemas operacionais deveriam decorrer de pesquisas rigorosas, feitas por especialistas, porém sob a perspectiva única dos seus operadores. Ao operar tais sistemas, por outro lado, os operadores deveriam ser vistos como verdadeiros cientistas em ação, o que de fato eles são, embora nem sempre sejam reconhecidos como tais.
A mobilização dos operadores como cientistas em ação pressupõe que, em primeiro lugar, eles vivam em ambientes sadios, e que possam desenvolver os hábitos certos para lidar com as atividades repetitivas no dia-a-dia, de forma inteligente. Para tanto, algumas organizações propiciam condições para o trabalho em equipe, de forma casual ou sistemática, assim como programas de sugestões para que todos se sintam valorizados ao fornecer suas idéias para a solução de problemas.
Se o permanente contato dos trabalhadores com os equipamentos é feito de forma prazerosa, eles poderão tornar-se íntimos desses equipamentos. Com o tempo, podem formar mapas mentais das relações entre os seus sinais vitais, assim como fazem os médicos, e montar verdadeiras tabelas práticas para a solução de problemas. Ruídos, variações de temperatura, vibrações e pequenas trincas podem ser interpretadas pelos operadores como indícios de problemas prontamente sanáveis, sem a necessidade de instrumental sistemático para conduzir análises da situação, conforme descrito no livro Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas.
Entende-se, assim, que algumas metodologias rigorosas de solução de problemas, impostas a quem já sabe resolvê-los, podem ser desmotivadoras no trabalho operacional do dia-a-dia. Criar um ambiente propício ao trabalho prazeroso e de qualidade, além de reconhecer que todo trabalhador é um cientista em ação, torna-se uma condição para se concretizar a era do conhecimento.
Está implícito nessa lógica que, após conceber e confirmar um sistema operacional, a operação propriamente dita do mesmo deve ser conduzida com extremo cuidado, incorporando-se as lições da história. Na atualidade, com a grande intensificação da automação, os operadores são levados a desenvolver um senso refinado para dar manutenção produtiva total aos equipamentos, porém a partir de manutenção total da própria saúde e do desenvolvimento da autodisciplina. De certa forma, trata-se da intensificação da espiritualidade latu sensu no ambiente de trabalho.
É preciso partir de algumas lições da história a respeito, para que se tirem o melhor proveito das pessoas e da tecnologia. A primeira lição é que a operação de atividades repetitivas pode ser extremamente desmotivante, e até mesmo danosa à saúde do trabalhador. A segunda é que os padrões, ou sistemas operacionais geralmente são concebidos sem a efetiva participação dos seus operadores. Geram-se, então, aberrações que, para serem sanadas, exigem que os trabalhadores ignorem os padrões pouco inteligentes que lhes foram prescritos, recriando-os, às vezes clandestinamente.
As pesquisas dos ergonomistas têm demonstrado, de maneira sistemática e fartamente documentada, que o uso da inteligência no trabalho nem sempre é permitida. Por outro lado, quando se leva em consideração a natureza humana naturalmente criativa, podem-se resolver problemas complexos a partir da colaboração dos operadores.
Os sistemas operacionais deveriam decorrer de pesquisas rigorosas, feitas por especialistas, porém sob a perspectiva única dos seus operadores. Ao operar tais sistemas, por outro lado, os operadores deveriam ser vistos como verdadeiros cientistas em ação, o que de fato eles são, embora nem sempre sejam reconhecidos como tais.
A mobilização dos operadores como cientistas em ação pressupõe que, em primeiro lugar, eles vivam em ambientes sadios, e que possam desenvolver os hábitos certos para lidar com as atividades repetitivas no dia-a-dia, de forma inteligente. Para tanto, algumas organizações propiciam condições para o trabalho em equipe, de forma casual ou sistemática, assim como programas de sugestões para que todos se sintam valorizados ao fornecer suas idéias para a solução de problemas.
Se o permanente contato dos trabalhadores com os equipamentos é feito de forma prazerosa, eles poderão tornar-se íntimos desses equipamentos. Com o tempo, podem formar mapas mentais das relações entre os seus sinais vitais, assim como fazem os médicos, e montar verdadeiras tabelas práticas para a solução de problemas. Ruídos, variações de temperatura, vibrações e pequenas trincas podem ser interpretadas pelos operadores como indícios de problemas prontamente sanáveis, sem a necessidade de instrumental sistemático para conduzir análises da situação, conforme descrito no livro Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas.
Entende-se, assim, que algumas metodologias rigorosas de solução de problemas, impostas a quem já sabe resolvê-los, podem ser desmotivadoras no trabalho operacional do dia-a-dia. Criar um ambiente propício ao trabalho prazeroso e de qualidade, além de reconhecer que todo trabalhador é um cientista em ação, torna-se uma condição para se concretizar a era do conhecimento.
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